segunda-feira, 27 de junho de 2011

Reunião dos detidos no Sindicato dos Advogados

Ocorrerá no dia  30 de junho (quinta-feira) às 18:00 horas no Sindicato dos Advogados no Estado do Espírito Santo uma reunião dos detidos com a advogada Carla Pedreira para que possamos ver que medidas tomaremos diante do acontecido.


Não podemos nos silenciar, precisamos  nos organizar e agir conjuntamente.


Endereço: Rua Alberto de Oliveira Santos, nº 59 Ed Ricamar, Sala 608. Centro - Vitória.

Resposta a uma jornalista

Jornalista: Como aconteceu e qual é o sentimento diante de tal ato?

Tássio: O cenário de 2 de junho foi um cenário de terror, de guerra. Era uma guerra declarada da polícia contra cidadãos que se manifestavam pacificamente pela paz e por um transporte público acessível e de qualidade.
A sensação naquele momento era de incompreensão do que estava acontecendo: como uma polícia que existe para defender os cidadãos é usada justamente para o contrário e joga bombas, da tiro de borracha e prende estudantes e trabalhadores? Ainda não compreendo muito bem o que aconteceu comigo e com os colegas, mas o sentimento que fica é um misto de indignação e espanto. Naturalmente me senti lesado e violentado, pois não havia justificativas da minha prisao. A ação deles foi ilegal e truculenta. O pior de tudo que o governo não admitiu o erro e a mídia silenciou-se diante disso.


domingo, 19 de junho de 2011

Como dois e dois são cinco. (02/06/2011) por Guillermo Vargas Cruz a Quarta-feira, 8 de Junho de 2011 às 0:24

Como dois e dois são cinco (02/06/2011)

As Primeiras Notícias
No dia 02 de junho de 2011, por volta das 13h, fui informado dos embates entre manifestantes que protestavam no Centro de Vitória pelo direito ao Passe Livre com a Tropa de Choque da Polícia Militar. As notícias falavam de um confronto brutalmente desigual, entre uns 70 estudantes e um contingente de policiais armados até os dentes. Revoltados com a violência aplicada aos manifestantes, eu e outros estudantes começamos a pensar no que poderíamos fazer. Paralelamente, Centros Acadêmicos discutiam quais ações seriam tomadas.

O Protesto
Por volta das 16h, faixas de protesto já haviam sido pintadas e uma multidão de estudantes começava a se concentrar. Já não se tratava de um movimento apenas pelo passe-livre, mas de um ato de repúdio às ações da Polícia no Centro de Vitória e em Barra do Riacho (em 18 de maio de 2011. Era um ato em defesa aos direitos humanos. Às 16h30, as presenças da Polícia Militar, do Batalhão de Missões Especiais (BME) e da Ronda Ostensiva Tática Metropolitana (ROTAM) indicavam que não seria um manifesto qualquer.

Sem conversar com os estudantes que ocupavam a Avenida Fernando Ferrari, o Sub-Tenente da Polícia Militar, José Moura, chegou a conclusão de que os manifestantes não queriam diálogo. Foi confirmada então (mediante autorização do governador em exercício Givaldo Vieira), a ofensiva do BME. Foram lançadas as primeiras bombas de efeito moral pela polícia, com o objetivo de dispersar os manifestantes. Em meio à correria, alguns estudantes, intimidados pelos ataques, passaram a atirar pedras contra o BME. Bombas e balas de borracha contra pedras.

O Camburão e o Procedimento
Enquanto assistia à cena de guerra na calçada oposta, com um cartaz de protesto na mão, fui surpreendido com a ação do Soldado Aguiar, da Polícia Militar, que apontou para mim, ordenando que dois brutamontes do BME me prendessem. Fui detido na calçada, ao lado de repórteres e transeuntes, pelo simples fato de ter um cartaz nas mãos. Às 17h eu já me encontrava dentro do camburão, com outro manifestante detido. Na gaiola, enquanto eu e meu colega conversávamos com alguns policiais do BME, algumas falas me chamaram a atenção.

Um dos policiais disse mais ou menos assim: “Nós concordamos com o protesto de vocês, o preço da passagem é mesmo absurdo, mas vocês extrapolaram. Não podiam bloquear a avenida, impedir o direito de ir e vir. O BME agiu como tinha que agir. Agiu conforme o procedimento”.

Outro policial, comparava a ação do BME com as ações de repressão policial de outras épocas: “Vocês tem sorte, porque agora é bem melhor que na ditadura. Aqui as balas são de borracha. Na ditadura, eram balas letais. A preparação da polícia evoluiu muito.”

Uma terceira fala policial menciona devidamente os direitos humanos: “Não tem do que reclamar, esse é o procedimento. Evacuação, imobilização, bombas de gás... Nós do Batalhão, seguimos padrões e normas internacionais, inclusive, de direitos humanos!”

A Delegacia
Como manda o procedimento, eu e meu companheiro de camburão ficamos trancados num carro do BME por mais de uma hora, até que fôssemos levados por uma viatura da Polícia Militar para o DPJ de Vitória. Já era noite quando eu e outros três detidos chegamos à delegacia. Éramos dois estudantes, um vigilante com uniforme de curso profissionalizante do Senai e um jovem que passava de carro e foi detido por descer do veículo e filmar com o celular a ação dos policiais. Na delegacia, a Polícia Civil também agia conforme o procedimento. Fomos colocados no banheiro da Delegacia, como “presos políticos”, separados dos demais.

Nas ruas, o implacável procedimento seguia fazendo suas vítimas. Uma jovem foi atingida com bala de borracha no pescoço, inúmeros outros foram atingidos nas mais variadas partes do corpo; bombas de efeito moral e imoral eram lançadas dentro da UFES; spray de pimenta nos olhos do povo era refresco para a polícia de Casagrande; policiais militares ameaçavam manifestantes e não manifestantes com armas de fogo letais; estudantes, trabalhadores e transeuntes eram imobilizados, pisados, arrastados, espancados, detidos e enjaulados. Tudo isso de acordo com “padrões e normas internacionais, inclusive, de direitos humanos”! Naquele dia, estava proibido filmar, fotografar e se expressar. Mesmo assim, para a polícia, para o Governo, os direitos humanos continuavam sendo respeitados.

Às 20h, chegaram ao DPJ de Vitória outros 23 manifestantes presos. Quatro mulheres, dentre os detidos, foram separadas e colocadas também no banheiro, comigo e outros três “presos políticos”. Em nome dos direitos humanos de igualdade, homens e mulheres (duas menores de idade) foram mantidos presos no mesmo ambiente. Durante mais de uma hora, os outros 19 “presos políticos” restantes foram mantidos algemados de dois em dois (pelas mãos ou pelos pés) na cela “normal”. Com a chegada de vários advogados de entidades de defesa aos direitos humanos, os 19 detidos tiveram as algemas retiradas, mas permaneceram na cela. Foram identificados dois menores de idade na cela. Os dois garotos foram colocados, então, também no banheiro, que começava a ficar apertado.

Durante horas, os advogados presentes tentaram negociar com o delegado a soltura dos manifestantes detidos. Perguntado por um advogado se havia água para os presos, um agente da Polícia Civil respondeu ironicamente: “Claro. Aqui tem água da torneira e descarga de delegacia”. O próprio policial acha graça do procedimento da polícia.

Colegas detidos contavam o que estava acontecendo nas ruas. Uma menina muito nova e assustada disse ter sido arrastada pelos cabelos, por um agente do BME. Outra jovem disse ter sido pisada nas costas, antes de ser algemada. Um menor de idade foi chutado diversas vezes ao ser abordado. Um fotojornalista foi ameçado por uma policial com pistola em punho e depois detido. Confesso que nessa hora estranhei a ação dos policiais, mas lembrei que isso também deveria fazer parte do procedimento.

A Libertação
Após uma longa espera (das 17h à 1h, um total de 8 horas), fui chamado para depor. À 1h30 estava do lado de fora. Pais, colegas e professores aflitos perguntavam pelos outros detidos. Alguns pais nem tinham recebido a confirmação de que os filhos estavam lá.

Eu e os outros três que haviam sido detidos desde às 17h em frente à UFES, fomos os primeiros a serem soltos. O último dos presos só saiu às 6h00 da manhã. A noite foi longa na delegacia.

Tudo bem, tudo certo
Pela manhã, os jornais impressos noticiavam, que o BME, a Polícia Militar e a ROTAM haviam agido de maneira correta, obedecendo ao procedimento padrão de modo a garantir o direito de ir e vir de “1,3 milhão de capixabas”. As manchetes retratavam os manifestantes como bagunceiros e inimigos da ordem pública. Um dos presos, por acaso filiado ao PSOL, foi eleito, deliberadamente, pelos jornais como líder do movimento.

Mais tarde, em tom de desabafo, uma jornalista de A Tribuna me diz: “Quem escreve as manchetes é o chefe. E o Governo tem influência direta sobre as notícias dos jornais de Vitória”. A imprensa também tem o seu procedimento.

Após toda essa turbulência, protestos, BME, truculência, balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo, espancamento, spray de pimenta, prisões arbitrárias, suspensão de direitos humanos e civis e chá de cadeira na delegacia, um pensamento não me sai da cabeça: não há nada errado. Não aconteceu nada de errado na 5ª feira. Nada. Tudo funcionou como é feito para funcionar.

O BME e a ROTAM bateram. A Polícia Militar com seus P2 (policiais à paisana) exerceu sua função inconstitucional de investigação. Os policiais civis na delegacia esculacharam igualmente presos “normais” e “políticos”. O Secretário de Segurança Pública, Henrique Herkenhoff, um legalista nato, ciente de todo o procedimento, liberou o massacre. O Governador Casagrande e o Vice-Governador Givaldo Vieira, responsáveis diretos, quando questionados se o BME poderia entrar em ação, pressionaram a mesma tecla verde “confirma” que mais de 80% da população pressionara para elegê-los em 2010.

No último dia 02 de junho nada fugiu do procedimento. Nada deu errado. Tudo deu certo. Bem compôs Caetano Veloso em 1971: “Tudo certo, como dois e dois são cinco.”


 Guilherme Vargas Cruz

Com a pistola na cara: Eu, baderneiro, confesso minha culpa, meu pecado

Henrique Alves 



Na noite dessa quinta-feira (2) os substantivos “violência” e “brutalidade” ganharam três novos sinônimos: José Renato Casagrande, Givaldo Vieira e Henrique Herkenhoff. Senti isso na carne. Senti isso na alma. Dizem que o diálogo foi tentado: não, não foi. Nessa quinta, a democracia foi feita à base da porrada, na linguagem da pura força bruta.
Eram 17h30 quando, da minha casa, em Vila Velha, eu acompanhava os protestos. Dividia-me entre o rádio e o twitter (que fornecia links para as transmissões ao vivo, via vídeo). Naquele momento, os estudantes tomavam a Reta da Penha em direção à Terceira Ponte. Pelas fotos e vídeos, a massa estudantil parecia volumosa. Não pensei duas vezes, pois: catei minhas coisas e fui cobrir a manifestação. Pensava em colher material para uma possível reportagem de fim de semana.
Fui para o ponto do Shopping Praia da Costa, que, pelas circunstâncias, estava surpreendentemente vazio Entrei num 507 que, mal andou 10 metros, estancou. Era o primeiro indício de anormalidade. Por ordem da Polícia Militar, se não me engano, a Terceira Ponte fora interditada e ficou assim por 20 minutos. No ônibus, os passageiros discutiam se aquela era ou não uma manifestação legítima. Uma vez liberada, a ponte retomou o fluxo normal. Saltei no primeiro ponto após a ponte e, voltando pela rua do Ministério Público Estadual (MPES), senti que a atmosfera, antes vagamente tensa, tomou de vez tons sinistramente carregados. A normalmente pacata Duckla de Aguiar estava sombria: policiais e mais policiais - polícia montada, a tropa de choque formando seu paredão - estavam prontos para o combate.
Atravessei esse cenário com absoluta tranqüilidade, era um cidadão que não devia nada a ninguém. Mas, quando alcancei a metade da rua, um estrondo ensurdecedor cortou o ar. Pessoas corriam, uma densa fumaça branca se espalhava. Percebi então o que acontecia: policiais dispersavam os estudantes, daquele jeito que a gente conhece, para fora da Duckla de Aguiar, em direção à César Helal. Enfiei-me então pela Ulisses Sarmento, para, já no outro lado, na avenida (em frente à antiga Giacomim), acompanhar tudo mais de perto. Corri feito um louco e alcancei a avenida: o sentido Centro-Reta da Penha estava parado, tomado por carros e ônibus. O sentido oposto estava vazio: havia uma lacuna entre os muitos manifestantes que ali se aglomeravam e os policiais que se concentravam na intercessão entre a César Hilal e a Desembargador Santos Neves.
A fim de ter um bom panorama das movimentações, me afastei dos manifestantes e fui para um ponto de ônibus, aquele primeiro após a curva em que as duas avenidas se encontram. Havia ali um grupo de mais ou menos 20 manifestantes, em frente à entrada de um edifício. Talvez tal tenha sido meu erro. Lá atrás estava o Choque, lá na frente, os manifestantes e nós no meio de tudo. Precisamente neste ponto a brutalidade, antes apenas uma ameaça iminente, se revelou com uma repugnante intensidade.
A Polícia Militar, o Choque, a Companhia de Rondas Ostensivas Tático Motorizadas (Rotam) e, sobretudo, o Batalhão de Missões Especiais (BME) se valeram de uma pedagogia que só eles, apenas eles e tão-somente eles, entendem: a pedagogia da bala de borracha, do spray de pimenta e das - impecável eufemismo - bombas de efeito moral. Esta é a pedagogia que a força de segurança capixaba ministra quando vai lidar com estudantes. Mas, estes, coitados, ainda hoje tentam entendê-la. Nessa quinta-feira, a aula foi ministrada nos corpos e almas.
De repente, não mais que de repente, da antiga Giacomim saíram os policiais da Tropa de Choque. Assomaram já lançando as tais bombas e atirando balas de borracha. Covardia é pouco. Era um estouro atrás do outro. Num pequeno grupo de carros parados em frente àquele ponto, uma mulher deixou seu veículo; transtornada, num choro desesperado, gritava para os policiais: “Para com isso!! Para!!”. Em vão. Cada vez mais atroz, a investida continuou.
Enquanto isso, a força disposta no encontro das avenidas se aproximava cada vez mais. E a arbitrariedade policial decidiu que aquele cidadão que não devia nada a ninguém tinha, sim, uma dívida. Os policiais estavam já muito perto, mas não me movi. Achava que, como tudo na vida, truculência tem limite. Não, não tem – especialmente quando as forças de segurança capixabas estão em ação. Achava também que, em última instância, bastaria eu me identificar como jornalista.
Não tive tempo para nada. Uma policial - branca, loira, olhos claros - foi chegando com uma pistola em punho, apontada para meu rosto: “Deita no chão! Deita! Deita no chão!”, ordenava, aos gritos. Obedeci. Junto com ela, um batalhão chegou e, torcendo braços, com chutes e pontapés, imobilizou boa parte dos que ali estavam. De barriga pro chão, não pude contar quantos estavam na mesma situação. “Bando de baderneiro filha da puta! Tão pensando que isso daqui é o quê?!”, vociferou um policial. Escopetas eram apontadas para o rosto de estudantes. Policiais invadiram o prédio residencial e de lá trouxeram mais gente.
Quando me joguei no chão, fiquei com medo - afinal, quem não ficaria com um batalhão armado até os dentes diante de si? Mas o sentimento não foi provocado apenas pela visão dos policiais e seus brinquedos. A forma como eles nos “abordaram” (muitas aspas; muitas mesmo) dizia sem hesitações que não estavam ali para brincadeira. Muito menos para o diálogo. Não perguntaram que eu era e muito menos o que fazia ali. Só muito mais tarde, esse procedimento, natural em legítimas democracias, seria observado.
Os esparramados no chão foram algemados. A ação foi tão desproporcional que, entre os manifestantes, um mero trabalhador foi preso. Ele trabalha pela Odebrecht na obras da Petrobrás na Reta da Penha. Estava no ponto de ônibus por acaso, esperando o ônibus. Ia para casa, em Vila Velha. Mas o destino aprontou das suas: o trabalhador foi mais um detido. Eu e mais um menino de 16 anos fomos levados para uma daquelas Blazers azuis da Rotam. Policiais revistaram nossa mochilas. Trancaram-nos no camburão e os policiais entraram no carro (cinco ao todo). Antes de acomodar-se na viatura, uma policial saiu-se com esta: “Agora eu atirei com força!”. Parabéns pra ela, não?
Ficamos rodando um tempo pelas ruas de Vitória. Não consegui identificar por onde passamos. Dentro do veículo, um policial disse: “Que estudante o que! É tudo um bando de filha da puta!”. Mas paramos, sabe-se lá por quê, em determinada rua. E veio um policial. Apresentava um serenidade tocante. Abriu o camburão e com um sorrisinho no rosto, disse, intimidador: “Rapaz, vocês vão apanhar pra caramba. Vão cagar mais que neném. Vão apanhar muito mesmo”.
Eu sabia que aquilo era uma tortura psicológica das mais rasteiras, ingênuas e pueris. Assim como as agressões verbais: adoravam nos chamar de “filho da puta”. Ríspida, uma policial perguntou para o mais novo: “Onde você mora? E onde estuda”. O menino respondeu. E virou-se pra mim: “E você?”. “Eu já sou formado. Trabalho como jornalista”. “Trabalha tacando pedra?”. “Não taquei pedra em ninguém, você pode ter certeza disso”. Ela, então, fechou o camburão e nos deixou em paz.
Como percebram que meu companheiro era bem mais novo que eu, os policiais encarnaram nele, dizendo que iria apanhar e tudo o mais. Mas, falando baixinho, para não dar bandeira, tranqüilizei-o, disse que não iria acontecer nada daquilo, nem com ele, nem comigo, nem com ninguém. Eram apenas (covardes) bravatas. Aí veio o momento de humor: dois policiais me questionaram das minhas ocupações. Respondi que era jornalista. E eles riram, como quem diz: “Ah, ta. E eu sou o Casagrande!”. Fazer o quê, né?
Chegamos à rua do DPJ de Vitória. Os carros, estacionados em fileira, estavam sobre o canteiro central da rua. Ficamos mais um tempo parados, dentro do “cofre” (na gíria policial) fechado e abafado. E, como não?, claro que teve mais torturazinha psicológica: “Vocês [estudantes] não vivem dizendo que policial é covarde? É isso aí. A gente é covarde mesmo”. Logo em seguida, uma policial pegou nossos dados - nome, idade, profissão, endereço, filiação.
E finalmente fomos levados ao DPJ. Aos poucos, outros manifestantes detidos também foram chegando, todos se acomodando nas cadeiras do saguão. Enquanto isso, duas advogadas do Sindicato dos Advogados do Espírito Santo recolhiam o nome e a ocupação de cada detido. Ali, na frente de mais gente e de advogados, os policiais nunca pareceram tão cordiais.
O tempo todo - exceto a passagem da pistola apontada para mim - estive muito tranquilo. Mesmo. Em relação aos outros detidos, a sensação era também de certa calma, apenas por vezes perturbada por uma pequena tensão. Mas estava tudo bem. Fomos todos, então, levados à cela do DPJ. Importante: ainda estávamos todos algemados. Conduziram-nos, antes, a um banheiro, localizado atrás da cela. Lá nos algemaram em duplas.
E, agora sim, estávamos todos na cela. Quente e abafada: eram 20 homens dentro de uma cela medindo entre 30 e 40 metros quadrados. Uma faixa vermelha dividia o recinto: do lado de lá, sete homens já o “habitavam” (alguns estavam ali há mais de três dias). Segundo os policiais civis, eram traficantes perigosos. Do lado de cá, se acomodaram os manifestantes.
O amor, o sorriso e a flor
Marrentos, os policiais civis “pediam”, com tocante delicadeza, que nos sentássemos. Não podíamos ficar em pé. A marra só cedeu quando chegaram os representantes de entidades estaduais de direitos humanos – entre eles, o advogado André Moreira e o defensor público e vice-presidente do Conselho estadual de Direitos Humanos (CEDH), Bruno Nascimento.
Daí pra frente,correu tudo bem. Com os representantes ali, as algemas foram retiradas. E, como os pais e parentes acorreram ao DPJ, a comida chegou: biscoitos, salgados, pão, mortadela, presunto, queijo, refrigerante e água. Era tanta comida que, a certa altura, foi proposta uma greve de fome. Proposta rejeitada, claro. Vale lembrar: os provimentos foram divididos com os primeiros detidos.
Eram oito da noite quando eu e meu companheiro entramos no “cofre”. Chegamos ao DPJ às nove. Eu fui liberado às duas da manhã. Ou seja, foram seis horas de detenção. O processo poderia ter sido mais arrastado. Mas uma comitiva do MPES chegou ao local e acelerou os trâmites. Queriam nos enquadrar em pelo menos dois artigos: corrupção de menores (havia três, com 16 e 17 anos) e depredação do patrimônio público. A atuação de representantes de entidades e dos promotores conseguiu derrubar as duas. No final, assinamos um Termo Circunstanciado. Um a um, após confirmar dados com um escrivão, deixamos a simpática cela daquele DPJ.
Mais ou menos às três e meia da manhã, eu estava do lado de fora do DPJ. Batia um papo com os outros detidos. Então, a porta se abre e de lá sai, corpulento, o secretário de Estado de Segurança Pública, Henrique Herkenhoff. Não faço a menor ideia de que horas ele chegou. O secretário foi espairecer, fumar um cigarrinho. A noite foi longa para ele. Ninguém sabe o que o secretário foi fazer lá - defender os estudantes é que não era - mas Herkenhoff ficava de lá pra cá e de cá pra lá no DPJ.
Tal é o saldo destas minhas memórias do cárcere: 26 novos amigos, seis horas de detenção e nove horas de convivência com policiais – militares e civis. O sol já despontava naquele morro ali (que não sei qual é, atrás do Atacado São Paulo). Eram cinco e meia da manhã quando o último detento foi liberado. Foi a mesma hora em que peguei minha mochila e fui-me embora. Esse 2 de junho não vai deixar saudades. Talvez para o governador, seu vice e o secretário de Segurança.

Carta no calor das emocoes do dia 03/6:

"Saudações,

Ontem quase 30 jovens estudantes foram barbaramente presos (digo sequestradas/os) pelo estado sem nenhuma acusão, entre eles eu. Ficarmos a noite toda privados de nossas vidas, jogados num canto sujo das selas do DPJ de Vitória.

Ainda pretendo fazer uma crônica sobre as coisas hilárias que passamos. O que lembro agora é que a meses estes estudantes tentam uma audiência no palácio, e nunca ocorre, depois vem mais aumento no final do ano e dizem que não avisaram antes.

Fomos humilhad@s, fotografad@s, fixad@s e muitos tiveram seus videos/fotos apagados.

O governo até hoje no se pronunciou com tamanha violencia que os movimentos sociais vem sendo tratados. Nem na ditadura, anos 80, 90, ou mesmo em 2005, nas manifestacoes contra o aumento das passagens, houve tamanha brutalidade, em tão pouco periodo de tempo. Quem foi negociar com os manifestantes foi o secretaria de segurança. 

Gostaria de saber realmente quem governa o ES. Seria algum comandante da Policia Militar, algum desembargador, algum empresário ou alguma força oculta? Esta claro que Casagrande é apenas uma marionete e uma coisa é certa: as empresas de transporte, como outras, tem acesso fácil ao governo, posto que bancam as suas campanhas. Ou seria nós que bancamos com subsidios, impostos e ainda + R$2,30?

http://www.youtube.com/watch?v=nzq4iDUDMPU
abs,
marcio
Sequestrado politico pelo estado do ES"

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outro:
Segue abaixo resposta a um convite de A Gazeta para entrevista:

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Prezada Vilmara Fernandes, Em 6 de junho de 2011 17:33,

Eu não dou entrevista para A Gazeta que não seja ao vivo. Isso por que este canal de imprensa MENTE E DISTORCE OS FATOS, inclusive isso já aconteceu comigo em outras ocasiões.
Eis alguns casos recentes:
  1. O governo, ou melhor, o desgoverno Casagrande nunca abriu diálogo com as/os estudantes, como vcs mencionam, ou como as propagandas dizem durante os reclames dessa emissora;
  2. Quem interdita as ruas não foram as/os estudantes. Isso foi apenas uma reação às negativas de diálogo com o governo;
  3. Quem parou varias ruas de Vitória e Vila Velha foi a policia a mando do Governo;
  4. Quem parou o sentido Vitória da 3ª ponte foi a policia/governo, mentindo que era por questões de segurança e causando caos e revolta em Vila Velha contra quem não tinha culpa;
  5. Quem mais interdita as ruas, são as empreiteiras da Cesan, abrindo buracos duas ou até três vezes num mesmo local. Estranho isso, né? São as mesmas empreiteiras que financiaram a campanha desse governo; CPI já na Cesan!
  6. Etc, etc, etc...
Muitas vezes vcs não tem culpa, mas são cumprices. Os editores fazem o que querem com as matérias vcs produzem.

Vcs, jornalistas, deveriam defender o livre exercício da profissão, denunciar o controle da informação, o assédio moral, etc, etc, etc, como prevê o seu código de ética, e exigir uma retratação da Gazeta, com os seguinte dizeres na  capa do Jornal:
Governo não dialoga, estudantes vão às ruas.
ou algo mais marqueteiro, como os produzidos contra as/os estudantes por este jornal.

Atenciosamente,
Marcio

Fui preso galera!

Vê só que doidera:

Era uma quinta feira, e eu tinha acabado de assistir no Balanço Geral o Amaro Neto transmitindo ao vivo aquele furdúncio lá no centro de Vitória, no Palácio Anchieta. O BME passando por cima do tiozinho, disparando bala de borracha, esfumaçando todo aquele cenário que os capixabas tem por muito familiar: o Canal de Vitória e o porto por trás das grades, separado pela avenida onde tudo começou do palácio anchieta, todo garboso no topo das escadarias.

Que viraram barricadas, com um monte de estudante jogando pedras sobre o BME. Achei digno. Quem ficou mal foi o jornalista da record, com aquela quantidade de gás das bombas arremessadas pelos soldados na direção do Palácio Anchieta. Assisti enquanto almoçava.

Fui pra UFES, pra Semana Nacional de Pós Graduação do Mestrado de Ciências Sociais, evento que o Mestrado do Curso realizava pela primeira vez. Participei do GT até o intervalo, 15:00 da tarde, e fui pegar meu copinho de café. E falaram do ato lá na frente. Fui né. Já tinha assistido tudo pelo Balanço, queria ver com os meus próprios olhos o que tava acontecendo.

Cheguei lá na Frente e uma galera já tinha fechado a Fernando Ferrari. Muito mais gente que no centro, aparentemente. E o BME chegou, e foi o Caos. Confesso, ajudei a quebrar o cadeado do portão da universidade. Ia ser foda todo mundo correndo, imaginava, pelos portões apertadinhos da ufes quando o BME agisse. Eu sabia que eles iam dispersar todo mundo.

Mas deu tudo errado. Eles dispersaram todo mundo e se mantiveram na frente da ufes. Inevitável, pedras voando. E bombas pra dentro da universidade. Nesse momento, já não havia mais estudantes na rua, todos dentro da universidade. Em frente ao Teatro Universitário, onde acontecia um evento de educação infantil ao que me parece. Haviam vários ônibus estacionados em frente. Foram os que levaram as crianças pro Teatro e que estavam sendo bombardeados pelos policiais.

Quatro pessoas foram presas, sem acusações. O oficial responsável pela operação, indagado por mim, se recusou a dar informações sobre as prisões.

Com meu celular filmei toda ação. Principalmente dentro da universidade, filmando os policiais fora, gritando "Tô filmando, não atira, tô filmando!" "Só tem criança no teatro manda parar de atirar bomba, só tem criança!" "Para de dar tiro tem um monte de menina, tem um monte de criança, para de dar tiro". Enquanto isso eles, por trás das grades, continuavam com as bombas, com os tiros. Pra dentro da Universidade.

    Foi essa hora aqui

Aí eu tomei o primeiro. E o segundo, na costela e na barriga. Achei que fossem pedras no começo, mas quando ardeu entendi o que tinha acontecido. Tomei dois, corri, tomei o terceiro, com certeza do grupo que eu filmava: Um oficial e mais três policiais, um dos quais disparou um tiro à curta distância. Esse oficial...

Aí acabou meu dia. Os manifestantes se reagruparam dentro da ufes, e saíram em passeata pela saída norte da Universidade em direção à Terceira Ponte. A essa altura até o vice reitor, além das criancinhas do Teatro, já tinha curtido sua dose diária de gás lacrimogênio. E a passeata seguiu surpreendentemente ordeira e pacífica, pra tudo o que já tinha rolado aquele dia. E fui junto né? Até tiro já tinha tomado!

Meu plano era outro praquela quinta feira. Mas como se acovarda? Depois do que eu vi acontecer na frente da Universidade onde estudo, depois de tomar tiro de bala de borracha, como é que volta pra assistir apresentação de trabalho em evento acadêmico? Fui junto. Mas confesso que sabia que ia dar merda. Os caras do BME tudo com sangue nos olhos durante a ação. Na crueldade mesmo, no sadismo, na piadinha...

Pro BME, só os reprovados no psicotécnico, parece. Todos sem identificação, uma boa parte deles mascarados. Levantaram a suspeita de serem esses os que fazem algum curso na UFES. Nos reencontramos antes da praça do Cauê, no final da Reta da Penha. Mais balas de borracha, mais bombas de efeito moral e gás lacrimogênio. Na ufes estava com a camisa molhada no rosto, sofri pouco com o gás. Na chegada da ponte foi sinistro.

Todo mundo dispersando mó correria. Nos reagrupamos na Cezar Hilal. Resolveram fazer uma plenária pra decidir o que fazer. Quarenta minutos de jograis poéticos até que estoura um corre corre. Gente gritando, correndo, uns pra um lado outros para o outro.

ENTÃO: Um sujeito armado estava no meio dos meninos, ninguém sabia exatamente fazendo o que. Gritaram "POLÍCIA!" e ele "não sou polícia não não sou polícia não" até que, acuado, assumiu ser policial e levantou a arma efetuando três disparos. Uns correndo dele, outros correndo pra cima dele. E eu correndo atrás desses: "Vocês tão doido, tão querendo tomar tiro alguém aqui tem o peito de aço?". Ainda ouvi de um cidadão muito bem disposto "Se for mais de dez atrás dele ele não vai ter bala suficiente pra todo mundo, não vai atirar."

Aí enquanto o P2 corria da turba, no rastro dele veio o BME, com tiros e balas de borracha. Acabaram com a belíssima assembléia, que tinha decidido, veja só, marchar até a casa do Casagrande(!!!). E todo mundo correu, na iminência de quê? Correr pra Leitão da Silva, pra voltar pra UFES. Foi a proposta derrotada no exercício poético-discursivo dos jograis.

Falei o tempo todo pra todo mundo: Tá doido gente, os caras com sangue no olho e vocês fazendo plenária? Vamos em passeata pra qualquer lugar, em passeata os caras não pegam agente, tamo aqui chamando eles. E rolou a treta com o P2. E o corre corre. E o BME chegando na grosseria.

Aí fudeu tudo.

Todo mundo correndo entre os carros e os policiais atravessaram pelo terreno baldio da antiga GIACOMIM, se não me engano. E encurralaram uma galera. Eu dentre eles. Quando dispersou todo mundo eu fiquei pra trás, fotografando e orientando a galera pra correr "Corre galera sai daí, agrupa com o resto do povo lá na frente!"

Aí eu parei na frente de um prédio cheio de gente da passeata. Tem até um vídeo aí que mostra, exatamente a hora da minha prisão. "Sai de dentro do prédio gente, vc´s vão ficar aí em 10 com todo mundo lá na frente? Vamo atrás de todo mundo aqui agente vai se fuder!" Aí cercaram agente. "Todo mundo volta pro prédio, corre pra dentro eles tão vindo!" e fiquei do lado de fora pra assistir o que acontecia.

Eis que vindo  com a tropa que invadia, quem eu reencontro? O querido oficial que eu havia filmado lá na frente da ufes. O mesmíssimo, com a farda camuflada. Pistola apontada para a minha cara, desde lá debaixo: "MÃO NA CABEÇA! MÃO NA CABEÇA!" "sim senhor"

Botei as mãos na cabeça e desci as escadas do prédio em direção à calçada. Fui imobilizado e jogado no chão. Não ofereci resistência. "DEITA COM A CARA NO CHÃO, CARA NO CHÃO!" Fiquei com a cara no chão.

Chega o oficial: "ACHOU QUE IA FILMAR A MINHA CARA NÃO É? CADÊ SEU CELULAR? CADÊ O CELULAR?". "No meu bolso esquerdo senhor". Fui revistado, não encontraram. Me levantaram eu peguei o celular no bolso e entreguei a eles. Me algemaram e me botaram no cofre da viatura com outro manifestante que fotografava e filmava o ato desde o começo.

Durante 1 hora fiquei preso no cofre da viatura e algemado, ouvindo o rádio da polícia. No rádio, a confirmação de que o sujeito armado era realmente um policial infiltrado: "O que foi que aconteceu?" "Um colega nosso do serviço reservado foi identificado, correram pra cima dele, mas agente garantiu a segurança dele lá".

Pelo celular do brother preso comigo, consegui avisar que havia sido detido, ainda no camburão. Foi muita gente pro DPJ, à espera de muitos amigos que haviam sido presos. Amigos, filhos, namorados, ex namorados, alunos, companheiros... E todos na maior agonia, porque só chegamos à delegacia depois de muito tempo detidos. Demos um rolêzinho antes.

Nos levaram todos para o quartel do BME em Maruípe. Fomos fotografados, tivemos a ficha levantda. "Mora aonde? Estuda na UFES? Qual curso?"  Menores de idade, meninas inclusive, todos na mesma situação. Sendo interrogados pelo BME.

Um oficial vem devolver meu celular. Todos os vídeos e fotos haviam sido apagados.

Algum tempo depois somos levados em um ônibus até a frente do DPJ de Vitória, no bairro Horto. Muito tempo após a nossa detenção, que deve ter ocorrido por volta das oito e pouco. Só fomos liberados da delegacia às quatro e tantas da manhã, sem que tenhamos sido sequer informados acerca do motivo da detenção.

Devo ter sido preso porque filmei. E tomei três tiros pq não joguei nenhuma pedrinha...

Faz sentido pra você?

desabafando, na moral? Igualzinho ao Espírito Santo. Aqui nada faz sentido. É governo defendendo ilegalidade, como no caso da construção do Estaleiro da JURONG na Barra do Riacho em Aracruz. É governo querendo expulsar gente de casa pra dar terra pra VALE em anchieta. É governo botando polícia pra expulsar gente de casa em Aracruz. Pra jogar bomba e dar tiro pra dentro da UFES. Hospitais Lotados. Passagem Cara, Serviço Péssimo. Trânsito Caótico. Poucas Ciclovias. Presidente do Tribunal de Justiça pego com a boca na botija vendendo sentença. E quem vai preso sou eu. Ele só aposentou com 22mil de salário. E tem mais um monte que vende sentença e todo mundo sabe e não fala nada. E tem mais um monte de coisa errada acontecendo que todo mundo sabe e ninguém fala nada. Um Estado que é muito mais sensível em manter a máquina funcionando que deixar a existência dos seus cidadãos mais suportável, nesse mundo caótico em que nós vivemos. E A GAZETA E A TRIBUNA FALANDO QUE TÁ LINDO, VAI TER EMPREGO, TAMO CRESCENDO. O que tá crescendo é o lucro do patrão de vocês,  das três famílias que são donas do Espírito Santo até hoje, e ficam alugando A MINHA TERRA feito PUTA pras multinacionais estrangeiras trazerem as plantas industriais que ninguém mais quer no "mundo desenvolvido" só pra ter mais uma graninha pra disputar eleição. Mas deixa estar. Enquanto vocês acham que o mundo não vai mudar, e se acomodam com conforto, é que o mundo se sacode e derruba esses parasitas que impedem o nosso livre desenvolver!

hoje os meninos marcaram um ato, concentração a partir das 7 da manhã no Palácio Anchieta. #protestoemvitória

e no dia 18 de junho a #marchadaliberdade! uma festa pelo direito da livre manifestação, contra a violência policial, contra os crimes ambientais dos governos, contra todos os tipos de discriminação, pelo livre desenvolver do povo! uma festa, pra matar os recalcados do outro lado de inveja!

Nota de esclarecimento sobre minha prisão – Tássio Ventorin


Como todos devem saber, na quinta-feira (2 de junho) eu fui detido pelo BME durante uma manifestação pacífica  contra o aumento da tarifa e contra a violência policial (1) por volta das 19:30 na Av. Cesar Hilal em Vitória.
Assim como nos outros casos de prisão, a ação da polícia foi extremamente truculenta e injustificável.  Ao todo foram 27 presos, sendo em sua maioria estudantes. Havia também um jornalista, um servidor público da UFES, um vendedor de pastel, um trabalhador da Empreitera Odebrecht e um adolescente trabalhador. O que ocorreu foi mais do que lamentável, foi repugnante: a repressão  e os ataques da polícia foram  uma afronta  à vida dos cidadãos e contra o direito constitucional de se manifestar.(2) Tais ações não dizem respeito apenas às práticas  facistas dos policiais mas também à uma política de segurança pública desse governo. Vide o caso da Barra do Riacho em Aracruz. (3)
Apesar de estar elaborando ainda o que aconteceu, posso-lhes falar  que o que aconteceu, não apenas comigo, foi uma injustiça brutal. Não sei, inclusive, se posso falar se fui preso ou detido, pois eu fui sequestrado pela força policial do estado. Para contextualizar, minha prisão se deu na seguinte sequência de acontecimentos:
1) o BME atacou os estudantes com bombas na Avenida que leva a terceira ponte e dispersou a multidão (1)
2) A multidão se juntou novamente e decidiu fazer uma assembléia na Av. Cesar Hilal, longe do comboio da polícia.
3) Em um determinado momento da assembléia, foi desencadeado um tumulto e um corre-corre pois um P2 (policial infiltrado) sacou a arma e apontou para uma pessoa. O P2 se dirigiu em direção ao comboio da polícia e eles resolveram avançar rumo à multidão.
4) Após  relativa calma, resolvi sair do posto de combustível que estava e  fui caminhando em direção  aos policiais que já tinham dispersado boa parte dos manifestantes. (sempre com a camera na mão).
5) Em um determinado momento do caminho me deparei com pessoas deitadas  no chão em frente de um prédio. Por estarem fora da aglomeração pensei que não haveria problemas em filmar e além de tudo havia imprensa no local. Ledo engano!
Quando me aproximei com a filmadora em mãos logo veio uma policial me abordando:  http://www.youtube.com/watch?v=c7_eWWx7Zjo&feature=related
Na sequencia disso, ela declarou que estava preso. Simplesmente isso.
Assim como os outros colegas fui entao deitado no chão de bruços e com os braços para tras; não fui algemado como os outros pois eles não possuiam mais algemas. Fiquei então uns 5 minutos nessa posição e fomos conduzidos até o camburão. No camburão, ficamos esperando por uns 30 minutos, sendo que boa parte do tempo sofrendo pressões psicológicas do policial. Na gaiola que fiquei estava apenas eu e mais um adolescente, entretanto nos outros haviam 4, 3 pesssoas. Eu e mais uma pessoa já foi extremamente apertado nem imagino com quatro pessoas. Cômico foi o policial falar em “Direitos Humanos Internacionais” naquela situação toda.
Fomos conduzidos até o BME e lá fizeram nossos cadastros, obtendo nossos dados. Após um  tempo prolongado, nos colocaram num ônibus e nos conduziram até o DPJ. No DPJ apesar da presença da imprensa, Ministério Público, Comissão de Direitos Humanos, Sindicato dos Advogados, OAB, procuradores e muitos advogados não houve por parte do delegado uma avaliação sensata do nosso caso. Essa entrevista com a advogada da Comissão de Direitos Humanos do Sindicato dos advogados explica muito bem o que aconteceu:( http://www.eshoje.com.br/portal/leitura-noticia,inoticia,12772,estudantes_presos_pelo_bme_nao_tiveram__direitos_respeitados_no_dpj_de_vitoria.aspx)
No final das contas, fui o ultimo a ser libertado e já era por volta das 6:00 da manhã. O tempo total desde quando fui detido chegou quase a 12 horas, meio dia. Um absurdo.
Por fim gostaria de pontuar três coisas:
1)     A atitude do promotor Saint’Clair de permanecer detido junto com a gente até o ultimo sair foi muito corajosa e muito importante para que o processo caminhasse.  Vale frisar também o apoio dos advogados e comissão de direitos humanos.
2)     Gostaria de agradecer o apoio e a preocupação de muitos amigos, professoras, pais e familiares.
3)     Repudio veemente a cobertura que a imprensa capixaba tem dado ao que tem acontecido. Todos os esforços da imprensa estão voltados para  deslegitimar o movimento que, por sua vez ,defende um transporte público acessível e de qualidade e  uma sociedade sem violência. A imprensa minimiza a violência da polícia, maximiza "desvios" de alguns manifestantes, desconsidera fatos e distorce outros. Total desserviço! (5)



É isso. A luta continua!
Saudações

Tássio Jubini Ventorin
Psicologia (Ufes)
Calpsi (Centro Acadêmico Livre de Psicologia)

(1)   Esses vídeos comprovam que a manifestação era pacífica e mostra o primeiro ataque covarde do BME, jogando bombas de pimenta
O desespero tomou conta de todos:

(2)   Vídeo da Record que mostra um pouco da ação da polícia. http://www.youtube.com/watch?v=ZV2LGwG7ZHo
(3)   Operação para desocupara área em Aracruz/ES
(4)   Novos ataques do BME

(5) Esclarecimentos sobre os recentes protestos em Vitória, Espírito Santo